Ele, algumas vezes, chama meu pai de pai.
Outras, é atrás de meu irmão que ele chama pai.
Já chamou amigos meus de pai. E chamou desconhecidos de pai. Ou, por vezes, simplesmente fica cantarolando baixinho... Pai, pai, papai...
Como que para fazer uso de uma palavra que ele não descobriu onde se encaixa, ele, simplesmente vai experimentando, sob meu olhar calado de quem não pode ajudar.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
E eu?
Sempre gostei deste tempo fechado que anda fazendo por estes dias, desta garoa, este friozinho para tomar com café quente, do aconchego que isto me traz...
Um evento e, de repente, passo a preferir o sol, porque não quero correr o risco de me misturar com a chuva nesta tristeza que parece que me espreita.
Pequenas mudanças que me deixam com uma certa perplexidade, transformações sentidas ao longo dos meses que me fazem tentar me entender, que talvez só eu perceba e ninguém mais.
Um evento.
E eu, que antes sabia de mim, agora tenho outros gostos desconhecidos, outras formas de agir, de sentir, de dormir, outros planos que eu ainda nem sei quais são e nem se realmente são meus.
Assim como um riso solto que não me acompanha mais, fico pensando se eu fiquei para trás.
Um evento e, de repente, passo a preferir o sol, porque não quero correr o risco de me misturar com a chuva nesta tristeza que parece que me espreita.
Pequenas mudanças que me deixam com uma certa perplexidade, transformações sentidas ao longo dos meses que me fazem tentar me entender, que talvez só eu perceba e ninguém mais.
Um evento.
E eu, que antes sabia de mim, agora tenho outros gostos desconhecidos, outras formas de agir, de sentir, de dormir, outros planos que eu ainda nem sei quais são e nem se realmente são meus.
Assim como um riso solto que não me acompanha mais, fico pensando se eu fiquei para trás.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Assim seja
Depois de um dia longo, abraço meu pequeno:
- Filho, que saudades!
- Xôdade papai.
Ele responde, sem eu saber ao certo se ele entende o sentido daquilo.
- É, filho... Lembra que mamãe já falou que o papai mora no céu?
- Amém... me responde sua voz de bebê-menino...
E me invade uma mistura de felicidade, tristeza e orgulho pela resposta rápida vinda tão naturalmente.
- Amém, meu filho. Amém.
- Filho, que saudades!
- Xôdade papai.
Ele responde, sem eu saber ao certo se ele entende o sentido daquilo.
- É, filho... Lembra que mamãe já falou que o papai mora no céu?
- Amém... me responde sua voz de bebê-menino...
E me invade uma mistura de felicidade, tristeza e orgulho pela resposta rápida vinda tão naturalmente.
- Amém, meu filho. Amém.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Desmedida dor
Muitas vezes me perguntei qual dor é mais pungente, quem tem mais direito a sofrer sem cessar, a ser compreendida sem escutar: A menina que tem o coração partido pelo primeiro amor, a esposa que perde o marido, o pai que perde o filho, o filho que cresce sem pai?
Ou quem tem outras dores escondidas por debaixo da vida tranqüila e normal?
Dei-me conta que não há como mensurar ou comparar a dor. Ela é sentida na proporção das histórias de cada um, são expressas de formas irregulares e refletem – ou por vezes escondem - as dores que vão ao peito.
Não chorar pode ser muito sofrer.
Não mais falar sobre o que já passou pode ser muito sofrer.
Engajar-se no cotidiano pode ser muito sofrer.
E de tal forma, e tanto, que não há como julgar nem muito menos saber.
Ou quem tem outras dores escondidas por debaixo da vida tranqüila e normal?
Dei-me conta que não há como mensurar ou comparar a dor. Ela é sentida na proporção das histórias de cada um, são expressas de formas irregulares e refletem – ou por vezes escondem - as dores que vão ao peito.
Não chorar pode ser muito sofrer.
Não mais falar sobre o que já passou pode ser muito sofrer.
Engajar-se no cotidiano pode ser muito sofrer.
E de tal forma, e tanto, que não há como julgar nem muito menos saber.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
A gênese
Há de se entender que, perder alguém assim, é perder muitas coisas ao mesmo tempo. É perder o motorista, o contador, o amigo, o namorado... É perder o ombro e o chão, é perder as pernas e o caminho... é perder-se por inteiro...
Recomeçar, como?
Pela gênese, pelo renascer, é aprender e viver.
Recomeçar, como?
Pela gênese, pelo renascer, é aprender e viver.
domingo, 14 de novembro de 2010
A Morte não é Nada, por Santo Agostinho
"A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.
Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.
Me dêem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.
Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.
Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.
Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.
Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.
A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?
Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho...
Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi."
Por Giovanna Leal
Hoje faço do silêncio uma outra forma de amar.
Me confundo com o que devo deixar para trás e o que, por direito, posso manter no peito, sem me machucar.
O que ele foi, vai continuar sendo... O que um dia eu fui, nunca mais será...
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.
Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.
Me dêem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.
Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.
Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.
Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.
Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.
A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?
Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho...
Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi."
Por Giovanna Leal
Hoje faço do silêncio uma outra forma de amar.
Me confundo com o que devo deixar para trás e o que, por direito, posso manter no peito, sem me machucar.
O que ele foi, vai continuar sendo... O que um dia eu fui, nunca mais será...
sábado, 30 de outubro de 2010
As caixas
Tirei a aliança do dedo e coloquei-a de volta naquela caixinha de veludo preto, onde tempos atrás, ela reluzia nova e cheia de promessas.
Agora, de volta à mesma caixinha, o brilho já se faz diferente pelos arranhões das marcas de uso e pelos sonhos interrompidos.
No mesmo instante, veio a minha cabeça a imagem de meu cunhado, naquela tarde de novembro, abrindo as mãos postas em oração para me entregar a aliança de seu irmão como quem entrega seu próprio coração.
Olhei novamente aquela visão – as duas alianças lado a lado – ali, naquela caixinha de veludo preto, e, com uma certa pressa de quem não quer se arrepender, guardei aquele pequeno cofre na Caixa das Lembranças do Papai, onde estão as entradas para um jogo, cartões de aniversário com a letra dele escrita, algumas fotos, relógios, os aviõezinhos de chumbo, alguns outros carinhos e até um punhado de cheiros para o pequeno descobrir com o tempo.
Escolhi a prateleira mais alta e empurrei a Caixa das Lembranças para o fundo do armário e fechei a porta.
Talvez façamos assim com alguns de nossos sentimentos: a gente coloca em uma caixa, dentro de outra, na prateleira de cima, no alto do armário, atrás de uma porta fechada, lá no fundo da alma... Onde ninguém mais pode alcançar.
Agora, de volta à mesma caixinha, o brilho já se faz diferente pelos arranhões das marcas de uso e pelos sonhos interrompidos.
No mesmo instante, veio a minha cabeça a imagem de meu cunhado, naquela tarde de novembro, abrindo as mãos postas em oração para me entregar a aliança de seu irmão como quem entrega seu próprio coração.
Olhei novamente aquela visão – as duas alianças lado a lado – ali, naquela caixinha de veludo preto, e, com uma certa pressa de quem não quer se arrepender, guardei aquele pequeno cofre na Caixa das Lembranças do Papai, onde estão as entradas para um jogo, cartões de aniversário com a letra dele escrita, algumas fotos, relógios, os aviõezinhos de chumbo, alguns outros carinhos e até um punhado de cheiros para o pequeno descobrir com o tempo.
Escolhi a prateleira mais alta e empurrei a Caixa das Lembranças para o fundo do armário e fechei a porta.
Talvez façamos assim com alguns de nossos sentimentos: a gente coloca em uma caixa, dentro de outra, na prateleira de cima, no alto do armário, atrás de uma porta fechada, lá no fundo da alma... Onde ninguém mais pode alcançar.
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