sexta-feira, 14 de maio de 2010

Anjos sem asas

Gosto da definição de que amigos são anjos sem asas...

E a certeza me veio durante estes seis meses. Esta metade de um ano em que tive sempre a mão os ombros estendidos de vários amigos – e fico feliz de poder chamar a minha família e a dele de amigos também.

Algumas destas pessoas vieram da minha vida, outras tantas da dele para minha.

Uns não me conheciam, outros não o conheceram, mas depois que ele se foi, permanecem em minha vida e na do pequeno de forma espetacular, como um movimento sincronizado de pássaros voando em bando.

Estas pessoas nos envolveram e nos acolheram e, como um casulo, as vejo tentando nos proteger até a transformação para uma nova etapa, de forças restituídas e sonhos arejados.

Não sabia que eram tantos nem que sua força era tamanha. Alguns nem sabia serem meus amigos.

Foram tantas palavras doces, tantos pequenos e grandes gestos... Uma pausa para o café, uma ajuda na tarefa inacabada, um abraço, uma gargalhada, uma piada, telefonemas de como vai seu dia.

Estas amizades, no momento da dor, não tentaram evitá-la, não se encabularam com um olhar que ficou perdido, uma frase pela metade, um humor ácido, lágrimas que insistiram em cair.

Elas somente ficam ali, observando, esperando passar, sem cobranças, vigiando para que o caminho não se perca, mesmo mantendo a fé que isto não vá acontecer.

Um compartilhar de sensações, sem tentar preencher o vazio que ficou. Um sufocar de suas próprias dores, para que as minhas possam se curar.

Naquele sábado, quando cheguei em casa, muitos destes anjos já estavam lá. Outros foram chegando com o correr do dia, e mais outros, no decorrer dos meses.

Alguns voltaram do meu passado, alguns de partes da vida dele que eu não vi.

Uns saíram de longe para um abraço, um colo. Uns sofreram pela conversa saudosa pelo telefone ou email que não permite o contato desejado no frio que a distância traz.

Não me senti só, pois nenhum amigo me faltou.

Sinto que todos estão aqui, com suas enormes asas.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Tempo mano velho

2009 foi um ótimo ano: fomos felizes.
2010 tem sido uma ponte para 2011, uma passagem, muitas conquistas, alegrias, dor e saudades.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Vazios

Posterguei a retirada das coisas dele de casa, por não ter pressa, por não querer mais nenhuma mudança na minha vida já tão revirada.

Simplesmente deixei para depois.

Sabia que o momento certo chegaria.

E foi assim, sem planejar nem fazer preparativos que, quando dei por mim, estava às voltas com suas coisas espelhadas pelo quarto.

Executei esta tarefa dolorosa, vi mais um pouco dele de partida e senti minha dificuldade em deixar que isto aconteça.

Sei que é irracional, mas estes sentimentos são tão vastos que é complicado entender até para quem os sente.

Muitos correm a limpar os armários, acho que para tentar acelerar o processo de cura, de luto. De cura do luto.

Eu precisei de tempo, e quando este chegou, foi mais fácil.

O que não me impediu de sentir os cheiros que trouxeram as lembranças que me invadiram e com elas, saudades.

Vi vazios se formando nas gavetas e os que ainda estão dentro de mim doeram mais fundo, mas senti que já tenho forças para construir novos espaços, novos caminhos, novos projetos de vida que sejam meus, que sejam para meu pequeno enquanto esta for minha tarefa.

Algumas coisas vão continuar onde estão. É minha escolha.

Outras, como a aliança que carrego no dedo, o tempo irá levar, mas só quando o meu tempo chegar.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Estado de Viuvez

Ser viúva não só um estado civil mas também um estado de espírito: você não tem mais o compromisso assumido com uma pessoa entretanto não deseja largar de tê-lo.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Carta para você!

Amor,

Tento escrever uma carta para você, como se você ainda estivesse aqui só para fazer algo que não fiz quando havia oportunidade.

Não consegui. A realidade é outra. A chance se foi.

Eu não posso mais te dizer coisas que pensava, eu não posso ouvir suas respostas.

Queria ter te falado mais sobre o amor que sentia, já que nunca é demais falar sobre isso, mas também sobre outros sentimentos, angústias e fraquezas, que achei sendo meus, não deveriam ficar expostos.

Nunca tive coragem de lhe contar do medo que sentia de te perder, escondi-o até de mim.

E é duro ver nossos medos tornarem-se reais.

Acreditei que tudo viria com o tempo e a seu tempo. O que eu não sabia era que este é que era limitado.

Conhecendo-me, assusto ao ver que não parti com você.

Mas que não continuo a mesma.

Olho para esta pessoa estranha que busca forças e as encontra não se sabe onde, que ri e se fecha e não a reconheço. Nem sei se você ia gostar dela. Espero que ela melhore.

Para me resgatar, fixo a mente nas muitas lembranças.

Elas me acompanham, boas, doces, amargas e felizes, desta época em que pude compartilhar com você uma vida inteira dentro de um curto espaço de tempo.

Não são muitas as pessoas que juntam as palavras casamento e felicidade em uma só frase. Alguns nem as têm.

Eu as tive e isso é muito.

E.

PS.: Ao nosso quinto ano, com o mesmo amor do primeiro!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

5 meses

A música do carro não toca alta o suficiente naquela curva a caminho de casa.

Queria que o som evitasse o mesmo pensamento de presságio e agonia que me assalta todos os dias, nestes cinco meses que nos separam.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Burocracia

Existe sim uma burocracia enorme pós-morte que, se sozinha já me traz grande descontentamento, piora ao verificar que junto a esta, assisto, resoluta, a vida dele ser reduzida a números, laudos, dados, datas e protocolos.

Esta burocracia começou exatamente no mesmo instante em que se instalou o sofrimento, veio insensível, trazendo seus prazos a serem cumpridos, papéis a serem entregues, cartórios e carimbos que ignoram os meus sentimentos e minha necessidade de ar.

Neguei ao máximo estas tarefas, talvez na esperança que, de alguma forma, ele voltasse para seu CPF e para mim.

Entretanto, mesmo com a ajuda de tantos queridos amigos e parentes que tentaram realizá-las, sempre é preciso da minha assinatura, do meu consentimento ou minha orientação.

No final, não consegui fugir.

E tenho que repetir meu indesejado recém adquirido estado civil e minha história para um nem sempre amigável atendente, que não percebe o esforço e a batalha interna para estar ali...

Semana passada, mais uma vez, dei entrada em outro processo.

Vi novamente a vida dele ali, exposta a uma desconhecida por detrás de uma mesa.

Desta vez, chorei envergonhada de ainda chorar nestas horas, me lembrando de que ele era mais que aqueles papéis, que tinha uma história que faz parte da minha e que luto para assegurá-la na de nosso pequeno.

Neste dia descobri que preciso, ainda, “averbar” minha certidão de casamento, voltar – pela terceira ou quarta vez – no cartório onde nos casamos para que alguém escreva que ele se foi, que sou viúva, que esta é minha nova história, oficial, carimbada, rotulada em quantas vias mais a burocracia solicitar.